“Uma cidade boa para a criança é uma cidade boa para todo mundo” – A importância de pensar a cidade sob a perspectiva da crianças

Fonte:https://www.hypeness.com.br/2020/03/projeto-organiza-grupos-para-incentivar-criancas-a-irem-a-pe-para-a-escola/

Resumo

Na série de temas do Projeto Cidade da Gente, chegou a hora de falarmos sobre cidade para crianças. Neste artigo, falaremos sobre a importância e urgência de enxergar e analisar as cidades sob a perspectiva das crianças, indivíduos que muitas vezes passam despercebidos nos debates sobre questões urbanas. Se queremos pensar na construção de cidades mais humanas, inclusivas e justas precisamos começar a reconhecer toda a diversidade de sujeitos que utilizam e moldam esses territórios. Nosso objetivo é mostrar a relevância dessa temática, passos que precisamos incorporar e avançar dentro do planejamento urbano, formas de colocar ideias em práticas e destacar exemplos de ações que já foram implementadas.

A criança faz parte da cidade e a cidade também é da criança

(Re)Pensar o atual papel das cidades é reconhecer que seu crescimento, extremamente acelerado e desordenado, foi historicamente regido por diversos marcadores sociais, de gênero, raça e classe social, que desenharam espaços urbanos desiguais e experiências urbanas também desiguais. Esse lugar social que ocupamos na cidade depende do quanto somos vistos e reconhecidos como sujeitos que protagonizam (ou não) esses espaços, seja no uso cotidiano, na escuta, participação ou na tomada de decisão.

Alguma vez, já te perguntaste “como seria a experiência de uma criança ao andar na rua?”, ou “o que uma criança entende por cidade?”, “quais as demandas, desafios, desejos, sonhos e percepções que uma criança tem sobre o espaço urbano?”.

Normalmente, não nos damos conta que as crianças são cidadãs, que vivem a cidade, que circulam nas ruas, utilizam transporte público, usam equipamentos urbanos, frequentam postos de saúde, vão para a escola, praça, parque… utilizam os espaços da cidade e que, ao fazer uso desses espaços, elas desenvolvem experiências e criam percepções. Se a criança é um sujeito de direitos, por que não tem suas vivências escutadas e validadas no momento de planejar a cidade?

O debate sobre o enfrentamento e superação do constante cenário de crises urbanas parte do reconhecimento da diversidade de indivíduos que compõem as cidades e, dessa forma, enxergar a cidade como um espaço de sobreposições de experiências é reconhecer e visibilizar as demandas, desafios, desejos e percepções dessa diversa composição de sujeitos (de diferentes idades, gêneros, raças, classes sociais, etc).

O processo de escuta e participação

Desenvolver um processo de planejamento urbano que incorpore a experiência da criança na cidade passa por incluí-la nas etapas de escuta e participação social. Historicamente, nossa sociedade tem colocado a criança em um lugar de passividade ou, em um não lugar, onde a criança não tem querer, não tem vontade, não tem voz, não pode correr, não pode brincar, não pode falar, não pode opinar… Como formar um cidadão ativo, protagonista, consciente e engajado se esse indivíduo passou todos os primeiros anos da sua vida sem estímulo para pensar e entender o seu papel dentro do espaço da cidade? Incluir a criança no processo de participação e tomada de decisão sobre os projetos e políticas urbanas é reconhecer a sua importância e a relevância das suas contribuições mas também é um processo de formação cidadã.

Colocar em prática a escuta ativa de crianças, no planejamento de uma cidade, é acreditar na capacidade de percepção, análise e de contribuição delas no desenvolvimento de soluções para melhorar o desempenho do espaço urbano. Esse processo precisa emergir em um contexto onde sejam criados espaços e metodologias adequadas para que as crianças possam expressar o que desejam. Suas demandas precisam ser validadas, reconhecidas, negociadas, justificadas e avaliadas para que, dessa forma, o ciclo completo de participação social seja efetuado e a formação cidadã assegurada.

“A criança é o paradigma da cidade boa” (Francesco Tonucci)

Quando reconhecemos as demandas de uma criança na hora de pensar a cidade, estamos incluindo, também, toda a rede de cuidadores que as acompanham. No Brasil, 85% das pessoas que cuidam de crianças mais novas são do sexo feminino, então pensar a cidade para crianças envolve uma discussão de cidade sob perspectiva de gênero e incorpora as demandas das mulheres. Pensar a cidade para criança envolve questões de acessibilidade pois, para pensar na autonomia da criança no espaço da cidade, é necessário pensar em rampas, níveis, transições de espaços, degraus, apoios, etc. Pensar a cidade para crianças é pensar em espaços seguros, iluminados, com áreas verdes e contato direto com a natureza para promover estímulos sensoriais e incentivo a descobertas e interações. Pensar a cidade para criança é pensar em uma “cidade de 15min” (Carlos Moreno), onde se reduz a distância a serviços, comércios e usos diversos facilitando, assim, os deslocamentos. Pensar a cidade para a criança é construir uma relação mais saudável com a cidade e enxergar a cidade como um lugar de encontro e de trocas, por isso, uma cidade boa para a criança é uma cidade boa para todo mundo.

Perspectivas futuras

Para desenhar o futuro das cidades, incorporando a perspectiva das crianças, é necessário (1) reconhecer a criança como sujeitos de direito, (2) escutar e validar suas demandas e expectativas, (3) acreditar no potencial da cidade como espaço de aprendizado e de promoção de interações, (4) promover condições ambientais e espaços que gerem oportunidades do livre brincar, garantindo assim a oportunidade de um desenvolvimento físico, emocional, intelectual e social, e entender que o brincar é o meio pelo qual a criança interage com o mundo, (5) estar sensível às demandas espaciais da criança, criando espaços que possibilitem estímulos como pular, correr, andar, esconder, construir, destruir, escalar, subir, descer, etc.

Fonte:https://earlychildhoodmatters.online/wp-content/uploads/2019/06/3.5-ECM18-Innov2Watanatada-MM_AWclean_2-adds_2800x1648.jpg

Investir em uma cidade adequada para crianças é reconfigurar e reinventar os seus espaços, construindo e consolidando, desde a infância, um senso de comunidade, uma relação afetiva com o território, estabelecendo vínculos e garantindo engajamento social na participação cidadã, enfrentando e superando a atual realidade de uma cidade hostil, alta demais, rápida demais e longe demais, um não-lugar ou um lugar de ninguém. Enxergar a cidade sob a perspectiva das crianças nos ajuda a perceber a cidade em um outro tempo, outro ritmo e outra escala, a prestar atenção no detalhe e nos sensibiliza a reconhecer a cidade não como um lugar de passagem, mas como um lugar de permanência.

Indicações e inspirações

Nesse debate de pensar a cidade para crianças, já é possível perceber avanços e conquistas em algumas cidades no cenário nacional e se inspirar em programas e ações que já foram colocados em práticas, em municípios, e que representam iniciativas possíveis de serem multiplicadas em outros contextos na busca de cidades que incluam essa lente da infância em seus debates sobre soluções urbanas. Programas como o projeto Urban 95 (https://urban95.org.br/), que busca pensar a cidade sob a perspectiva de uma criança de até 95cm, altura média de uma criança de 3 anos, e que trabalha alinhado com prefeituras para desenhar projetos e programas voltados para esse público. Cidades como Jundiaí e Boa Vista, que se destacam no cenário nacional com iniciativas que envolvem escutas e processos participativos com crianças, intervenções lúdicas pela cidade, implantação de projetos como “ruas de brincar”, e outras ações que colocam a criança como protagonista do espaço.

Para alcançarmos cidades mais sustentáveis, diversas, justas e igualitárias, precisamos repensar as nossas experiências como indivíduos nesses espaços e esse contato começa na infância. 

Referências

Cidade, gênero e infância, Rodrigo Mindim Leeb e Ana Gabriela Godinho Lima (org.)

Cidades para Brincar e Sentar, Bernhard Meyer e Stefanie Zimmermann. Disponível em https://criancaenatureza.org.br/wp-content/uploads/2020/12/Livro-Cidade-para-Brincar-e-Sentar-v-final-_-pag-dupla.pdf

Designing Streets for Kids. Disponível em https://globaldesigningcities.org/publication/designing-streets-for-kids/

Bairros amigáveis à primeira infância – Estruturação de políticas públicas. Disponível em http://site.arbo.org.br/wp-content/uploads/2021/03/iab-guia_1-web.pdf

Guia Urban 95 – Ideias para ação. Disponível em https://urban95.org.br/pdfs/guia-urban95-ideias-para-acao.pdf

Por Taynara Gomes, arquiteta e urbanista. Mestre doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFPA, professora nas faculdades Cesupa, Estácio e Faci, Gerente de Projetos no Laboratório da Cidade e colaboradora nos grupos de pesquisa Labcam UFPA e Urbana.

Cidade da gente é um projeto desenvolvido em parceria com o CAU/BR.

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