Rios urbanos como patrimônio

Entrevista com a Profa. Dra. Vania Neu

Fonte: G1.

Resumo

Belém é uma cidade cercada por 39 ilhas e cortada em diversos pontos por rios e igarapés, ainda assim, nosso desenho urbano, como em muitas outras cidades, ignora a relação com essas águas, o que causa impactos que vêm sendo sentidos com cada vez mais força tanto à natureza, quanto às vidas das pessoas. Nos ambientes de pesquisa, há iniciado um debate sobre os rios urbanos como patrimônio natural e a necessidade urgente de medidas mais efetivas para preservação, não só dos corpos hídricos, mas das culturas, relações econômicas e memórias que vêm desses lugares. Convidamos a Profa. Vania Neu, Dra. em ecologia pela Universidade de São Paulo,  para uma entrevista a fim de entender melhor sobre o que ameaça nossos rios urbanos e o que podemos fazer para preservá-los. Leia a entrevista a seguir.

LAB:  Você acredita na patrimonialização das nossas águas como uma forma efetiva de preservação dos nossos recursos hídricos?

Vania: Enquanto o homem não se der conta de que precisa das águas, dos rios e da natureza para sua sobrevivência nenhuma ação irá garantir a proteção das águas. Atualmente temos leis que protegem nossos rios, porém, nenhuma consegue efetivamente preservar.

LAB: Uma vez que consideremos nossos rios como patrimônios, como isto afeta a vida das pessoas que moram às suas margens ou dependem deles para suas atividades econômicas?

Vania: De modo geral os ribeirinhos e povos tradicionais respeitam o rio, pois sabem da importância que ele tem e, para eles, o acesso deveria se manter. O desrespeito e contaminação é muito característico de um grupo que não apresenta ligação com o rio, o qual visa apenas benefícios individuais. Sem pensar na manutenção ou sustentabilidade do sistema. Para este o rio deveria ter seu direito ceifado.

LAB: Moramos num centro urbano da Amazônia, Belém é uma cidade cercada por 39 ilhas e cortada em diversos pontos por rios e igarapés. Quando falamos da paisagem natural no meio urbano, qual futuro você enxerga diante das mudanças climáticas se não fizermos nada?

Vania: Em nossa região, que está poucos metros acima do nível do mar, os alagamentos acontecerão, especialmente nas áreas baixas. O processo de intensa ocupação e impermeabilização do solo resulta num grande acúmulo de água nas ruas, mesmo com pequenos eventos de precipitação. Quanto às chuvas, nos momentos em que coincidem com eventos de maré alta, atualmente,  as águas já tomam conta das ruas e casas, situação que se agrava em bairros mais carentes.

LAB: Temos visto diversas notícias sobre enchentes, doenças e contaminação decorrentes do uso predatório dos nossos recursos naturais. Como podemos preservar as relações históricas, sociais e econômicas do desaparecimento por conta deste uso inconsciente? 

Vania: Devemos começar urgente a rever nossos espaços urbanos, nossa relação com o rio, com o solo. Devolver a capacidade de infiltração de água, por meio de tecnologias baseadas na natureza (SBN). Devemos trazer de volta árvores, recuperar e descontaminar nossos canais e igarapés. Trazer a vida de volta aos espaços terrestres e aquáticos, devolver a navegabilidade aos mesmos. E mais importante de tudo é mudar nossos hábitos de consumo, descarte e o modo de relação parasitária com o planeta.

LAB: O que as cidades precisam para alcançar uma relação mais harmônica com os seus bens naturais, em especial os rios urbanos, e como a sociedade pode contribuir no processo?

Vania: As pessoas precisam respeitar o meio onde vivem, vendo a natureza como única casa. Precisam de gestores que cuidem da cidade, como quem cuida de um doente.

Mudanças de hábitos de consumo, transporte e alimentação. As cidades devem fazer com que sua ciclagem funcione. Atualmente grandes fluxos de comida, nutrientes e energia são canalizados do campo para a cidade, sem ter o retorno, o que causa um desequilíbrio com excesso de resíduos e esgotos na cidade e a falta de nutrientes e energia no meio rural. Aproveitar os resíduos para nova produção de alimentos seria uma maneira inteligente e sustentável que reduziria inúmeros problemas nas cidades.

Por Vânia Neu. Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (2002), mestrado em Ecologia de Agroecossistemas pela Universidade de São Paulo (2005). Doutorado em Ecologia Aplicada pela Universidade de São Paulo (2009). Tem experiência na área de Ecologia, atuando principalmente no Bioma Amazônico com os temas: ecologia, ciclos biogeoquímicos, carbono, mudanças climáticas, educação ambiental, conservação, sustentabilidade, tecnologias sociais e comunidades tradicionais.

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