Patrimônio Cultural e Crise Climática: O que temos a ver com isso?

Ver-o-Peso. Belém-Pa. Fonte: expedicaopara.com.br

Resumo:

Oi, Gente! 

Estamos iniciando o 3º ciclo temático do projeto Belém 40º, no qual vamos debater a relação entre Patrimônio Cultural e Natural e as mudanças climáticas, analisando de que forma podemos identificar e mitigar seus efeitos. Neste artigo, queremos mostrar como a cultura e a memória estão ameaçadas, e compreender de que forma a crise climática contribui com o aumento da vulnerabilidade social nas cidades.

Boa leitura!

Sâmyla Blois e Augusto Júnior.

  1. Patrimônio x Crise Climática

É um fato: os impactos da intensificação das mudanças climáticas já estão sendo diretamente vivenciados no mundo inteiro. O 6º relatório do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas (IPCC), publicado em agosto de 2021, mostra que o mundo atingirá ou excederá 1,5 °C de aquecimento nas próximas duas décadas, reverberando em diversos eventos climáticos como o desequilíbrio dos ciclos hídricos e ciclos de carbono, avanço das marés e aumento da acidez dos oceanos. Isso quer dizer maior número de deslizamentos, chuvas violentas, calor excessivo, mais alagamentos e inundações, entre outros efeitos.

A intensificação das mudanças climáticas, provocada pela ação humana, tem ameaçado as cidades do modo que as conhecemos hoje, com todas suas lógicas culturais, sociais e econômicas. Assim, o patrimônio cultural e partes importantes da memória de nossas cidades, como os prédios e monumentos históricos, costumes e práticas sociais, saberes e relações econômicas que fazem parte da identidade de uma região, estão ameaçados a sofrer alterações bruscas decorrentes do agravamento dessa crise climática.

Quanto aos prédios e monumentos históricos, a pesquisadora Carla Coelho alerta que estes sofrem grande influência do ambiente externo e, em um contexto de mudança climática, podem absorver ou liberar umidade de acordo com os índices de umidade relativa do ar, expandir e contrair em decorrência da alteração da temperatura, sofrer ataques de agentes biológicos propiciados pelas condições ambientais locais, entre outros fatores. Esses eventos tornam essas estruturas cada vez mais sensíveis e frágeis, acarretando em problemas como grande proliferação de mofo, desgastes estruturais ou até desmoronamentos. Além disso, a longo prazo, esses eventos aumentam a demanda de manutenções e intervenções no patrimônio, dificultando o manejo e a preservação dos mesmos.

Contudo, não só os edifícios, mas os sítios e centros históricos também estão sujeitos a diversos tipos de desastres como tempestades, enchentes e deslizamentos de terra. É o caso do centro histórico de Goiás Velho (GO) que, em 2011, foi castigado pelo transbordamento do Rio Vermelho ocasionado por uma tempestade de 15 horas de duração. As chuvas atingiram mais de 30 casas tombadas, as quais 2 casas com mais de 200 anos sucumbiram e vieram a baixo, além de danificarem diversos patrimônios tombados como a antiga casa e museu da poetisa Cora Coralina (1889-1985).

Infelizmente, esse é um cenário possível em diversas regiões do Brasil, principalmente em cidades localizadas em áreas costeiras, como é o caso de Belém – pois já são áreas expostas a eventos extremos, como inundações e tempestades. As regiões do centro histórico e do complexo do Ver-o-Peso, ambas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), de acordo com o Climate Central, estão sujeitas à submersão, em menos de 30 anos, causada pelo avanço das marés. O mapa abaixo evidencia as áreas alagadas em Belém, como o complexo do ver-o-peso, o centro histórico de Belém e a Universidade Federal do Pará. 

Mapa de projeção dos terrenos abaixo do nível de inundação anual em 2050 Fonte: Climate Change

Fato é que as inundações no Ver-o-Peso não são novidades. A maior feira livre da América Latina enfrenta sérios alagamentos quando a Baía do Guajará transborda após intensos regimes de chuva, comprometendo todo o complexo no que diz respeito à impossibilidade de locomoção na feira, queda nas vendas dos pontos comerciais e prejuízo aos comerciantes, além de danificações nos edifícios históricos e perigo sanitário aos moradores da região. Esse cenário pode ser cada vez mais cotidiano se medidas de mitigação desses impactos não forem tomadas. Mas o que aconteceria se a crise climática tornasse esse evento periódico em um cenário definitivo? O que aconteceria se o complexo do Ver-o-Peso sucumbisse aos avanços das marés? 

Entorno do Ver o Peso embaixo d’água. Fonte: Filipe Bispo/LeiaJáImagens.

2. O que temos a ver com isso?

Considerando que o ambiente que nos cerca fornece nossos meios de subsistência e integra nossa memória coletiva, os impactos desses eventos climáticos afetam não só o que é material na cidade, mas o modo que trabalhamos e convivemos. 

A coexistência de inúmeras experiências, vivências, relações e histórias é o que compõe os patrimônios existentes na cidade. A perda desses símbolos impacta não somente na destruição ou ruína de edificações históricas e arquitetonicamente relevantes, mas também na perda de relações econômicas e sociais proporcionadas por esses locais, nos múltiplos usos destinados à movimentação e divulgação cultural, localização de mercados e serviços, instalação de órgãos públicos e etc.

Assim, o valor do patrimônio reside não apenas na continuidade de sua presença física, mas também no uso que os cidadãos podem fazer dele, uma vez que a relação que estabelecemos com eles é o que influencia e determina a experiência final, seja a nível contemplativo, interpretativo, utilitário ou manipulativo, como demonstra o arquiteto Oscar Salles.

Infelizmente, o patrimônio cultural brasileiro enfrenta uma crise geral de conservação e preservação há anos, seja pela precarização dos instrumentos oficiais existentes ou pelo jogo imobiliário que ganha a cidade e favorece as classes dominantes. Essa crise, somada ao cenário intensificado de eventos climáticos, é potencialmente agravada, já que se demandam mais recursos para a mitigação dos impactos sentidos pela comunidade. O professor Sílvio Zancheti aponta que a associação entre o patrimônio cultural e as mudanças climáticas, no entanto, é um tema do conhecimento científico ainda em fases iniciais, mas que, como tema de política pública, é praticamente inexistente no Brasil e tampouco é legitimado com urgência pelos atores políticos.


No caso de patrimônios construídos, quando estes recebem uma atenção da gestão pública, geralmente se vêem projetos de requalificação ou manutenção de espaços que podem gerar uma questão: a quem esses locais estão sendo destinados? Comumente vemos na cidade um processo de dar esses novos usos para locais, intuindo certa preservação, ou um “embelezamento”, que, muitas vezes, não leva em consideração o tecido social ali pré-existente, desconsiderando as lógicas culturais desses locais que poderiam ser mais incluídas e ouvidas. Assim, esse processo que privilegia apropriações de refuncionalização desses espaços pode gerar uma “expulsão” das pessoas que antes utilizavam essas áreas, o que contribui com a intensificação da estratificação social e processos de gentrificação.

3. Cultura é uma potência

Queremos construir cidades mais resilientes, aquelas que consigam lidar de maneira eficaz com as transformações do mundo contemporâneo e que se integrem à natureza, ao invés de negá-la. Para isso, a cultura é uma potência que deve ser fortalecida para proteger não só a identidade de nossa cidade, mas as práticas e saberes pré existentes, no espaço, que pulsam e mantêm a vida urbana. Aquilo que integra nossa memória coletiva, bem como nossas construções materiais e imateriais, é, também, agente de resistência às transformações dessas mudanças climáticas intensificadas. 

Um bom caminho é fortalecer iniciativas que buscam salvaguardar nossos patrimônios a partir da conservação e sustentabilidade atreladas ao uso, convivência e trocas sociais com o espaço de maneira democrática – sem segregação, e respeitosa – que evite poluir o ambiente. É preciso, sobretudo, garantir uma dinâmica do espaço para que as pessoas sintam-se pertencidas a este. Considerando isso, estaremos protegendo nossa memória… Afinal, uma cidade sem memória é uma cidade sem história.

Referências

Mudanças climáticas alarmantes: veja 5 grandes resultados do relatório do IPCC: https://wribrasil.org.br/pt/blog/clima/ipcc-relatorio-mudancas-climaticas-2021

Mudanças climáticas e patrimônio cultural: elementos para a construção de cenários para a cidade do Rio de Janeiro (Carla Coelho): https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/31231

Pelo menos 30 casas da área tombada de Goiás Velho foram afetadas por chuva: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2011/01/12/interna_cidadesdf,231982/pelo-menos-30-casas-da-area-tombada-de-goias-velho-foram-afetadas-por-chuva.shtml

Land projected to be below annual flood level in 2050: 

EL USO DEL PATRIMONIO ARQUITECTÓNICO: http://www.ub.edu/geocrit/b3w-1049/b3w-1049-11.htm

Mesa-redonda sobre Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas: https://youtu.be/9yY7npeZUGY

Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas: Relatório Especial do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas:

Relatorio_DOIS_v1_04.06.17.pdf (ufsc.br)


Por Sâmyla Blois. Graduanda e PIBIC de Arquitetura e Urbanismo. Extensionista do Urbana Pesquisa. Estagiária do Laboratório da Cidade na área de pesquisas em sustentabilidade e espaços urbanos do projeto Belém 40°. Integrante do Coletivo Quintas Pretas.

Por Augusto Junior. Arquiteto e Urbanista. Assessor de Projetos no Laboratório da Cidade.

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