Sobre espaço público: ele é público mesmo?

Fonte: Archidaily, 2018.

O espaço público é entendido como aquele de uso comum e de posse de todos, que pode ser acessado livremente por qualquer cidadão, sem custo. Por esta concepção democrática, é um local que permite a expressão da diversidade, encontros entre cidadãos e manifestações cívicas. Mas será que é assim mesmo?

Ao fazer uma avaliação rápida, temos tendência a dizer que um espaço público bem-sucedido é aquele com paisagismo bem-cuidado, grama cortada, flores e plantas por todo o espaço, limpo, quase que imaculado. Esses fatores são importantes e permeiam outras questões de urbanismo e sustentabilidade, mas há outra variável a se considerar nos espaços públicos: pessoas em situação de rua. 

A intenção não é romantizar a situação dessas pessoas, mas sim fazer com que você exerça o seu senso crítico. Como uma sociedade pode falar em espaço público ao mesmo tempo que se sente incomodada com alguns usuários? É como se o uso da cidade fosse consequência do merecimento, onde pessoas julgadas como “não merecedoras” incomodassem a outra parcela da população.

Com isso vemos surgir o debate sobre cercamento de espaços públicos. O argumento dos que defendem essa prática é de que trará maior segurança e evitará destruições, principalmente à noite, entretanto, “cercar um espaço público não aumenta a segurança da cidade, desloca a violência para outro local e pode criar ausência de olhos da rua”, como expõe Anthony Ling no seu artigo Cercar espaços públicos é errado em todos os sentidos imagináveis.

Existe, em alguns locais, o que chamo de arquitetura e urbanismo excludente: estratégias de construção, desenho urbano ou paisagismo que mantenham pessoas indesejadas, a uma parcela da população, bem longe, como a mudança de um paisagismo que antes era composto de forração por um com plantas mais “pontudas”. Pode parecer uma mudança meramente estética, mas é algo que transforma um local sem uso, ocupado por pessoas em situação de rua, alguns com barracas, em um local vazio, como uma pintura urbana que muitos não se dão ao trabalho de observar.

Outra estratégia muito usada é a comumente nomeada de “espetos antimendigos”, para impedir que pessoas usem o espaço para se sentarem. Esse tipo de urbanismo hostil mostra o desinteresse em relação à diferença social, categorizando “quem queremos neste espaço e quem não queremos”.

As pessoas que não são bem-vindas são marginalizadas pelo restante da população, como se já não fossem mais cidadãos, tornam-se pessoas completamente invisíveis. A sociedade faz o julgamento de valor de pessoas que, na sua maioria, não tiveram a oportunidade de contar suas histórias. De acordo com o último Censo da População em Situação de Rua, feito pela prefeitura de São Paulo, quase metade das pessoas que responderam à pesquisa alegaram estar nas ruas por conflitos familiares, outros 33% citaram a dependência química ou problemas de saúde mental e 23% acabaram nessa situação por conta da perda do trabalho.

Não que isso seja algo que deveria determinar o uso da cidade, mas, talvez, se soubéssemos da história que cada uma dessas pessoas carrega veríamos a cidade de outra forma. Existem algumas iniciativas que buscam visibilizar as narrativas dessas pessoas em situação de rua, cabe à sociedade se dispor a ouvi-las e entender que a cidade é de todos, para todos.

Observe a cidade onde você mora e exerça o seu senso crítico.

Referências:

ARQUITETURA hostil: as cidades contra seres humanos. Outras palavras. 10 jul. 2014. Disponível em: http://outraspalavras.net/sem-categoria/arquitetura-hostil-as-cidades-contra-seres-humanos/. Acesso em: 08 julho 2020;

ROLNIK, Raquel. Se nada mudar, em breve São Paulo terá 50 mil pessoas vivendo na rua. 11 fev. 2020. Disponível em: https://caosplanejado.com/se-nada-mudar-em-breve-sp-tera-50-mil-pessoas-vivendo-na-rua/#:~:text=Metade%20das%20pessoas%20que%20responderam,o%20Brasil%20vive%20crise%20econ%C3%B4mica. Acesso em: 08 jul. 2020.

LING, Anthony. Cercar espaços públicos é errado em todos os sentidos imagináveis. 7 jun. 2015. Disponível em: https://caosplanejado.com/cercar-espacos-publicos-e-errado-em-todos-os-sentidos-imaginaveis/. Acesso em: 08 jul 2020.

Por Raquel Reis de Castro. Arquiteta e Urbanista defensora das praças e espaços públicos que incentiva o uso da cidade compartilhando sua própria experiência ou promovendo reflexões e discussões sobre o assunto.

Artigo revisado e editado por Toni Moraes – Monomito Editorial para Laboratório da Cidade.

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