A recuperação vai acontecer no espaço público.

Feira de rua em Kalaw, Mianmar que adaptou-se brilhantemente ao
distanciamento social. Fonte: pps.org

Na semana passada, 25 milhões de pessoas retornaram à vida pública nos Estados Unidos. Os casos de COVID-19 seguem aumentando mais do que os especialistas em saúde pública consideram seguro, mesmo assim governadores afrouxam cada vez mais as determinações de isolamento e de restrições ao comércio. Estamos em um momento precário do país, onde devemos equilibrar recuperação e cautela.

De todo modo, os espaços públicos a céu aberto, das pequenas e grandes cidades, devem se tornar essenciais daqui para frente. As pessoas precisam de alguma maneira voltar ao trabalho, e o povo quer sair de casa. Os cidadãos estão desesperados para ouvir novas mensagens de seus líderes políticos, não apenas sobre se devem ou não retornar à vida pública, mas como.

Os parques foram o primeiro raio de esperança durante a pandemia. Suas vias espaçosas e vegetação tranquilizante proporcionam às pessoas uma válvula de escape psicológica em momentos de ansiedade. No entanto, como muitas autoridades de saúde pública insistem: devemos incentivar as pessoas a usarem espaços públicos perto de casa, porém nem todos têm acesso a um parque em sua vizinhança. Além do mais, nem todos têm tempo para dar um passeio no parque. Trabalhadores essenciais e pais, entre outros, precisam de espaços públicos que sejam úteis e relaxantes.

As calçadas, ruas, praças e estacionamentos da cidade são patrimônios em espera por utilização. Cidades como São Francisco, Oakland, Nova York e Seattle estão fechando ruas para aumentar o espaço útil dos pedestres. No entanto, além de caminhadas, passeios de bicicleta e eventuais jantares a céu aberto, até então, nenhuma cidade apostou alto no uso desses espaços urbanos. 

Para evitar o ressurgimento da contaminação e para se recuperar de forma equitativa, as cidades devem pensar de forma mais abrangente sobre como os espaços cotidianos ao ar livre podem atender às necessidades diárias das pessoas, contribuindo diretamente com as comunidades mais afetadas pelo vírus e sua recessão.  

Ampliando o pensar dos espaços públicos.

Restaurantes de Tampa, Flórida, reabriram recentemente nas ruas para
ajudar no distanciamento físico. Foto de Ryan Smith. Fonte: pps.org

Recentemente, o Dr. Marty Makary, da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins, defendeu, no jornal New York Times, que, no futuro próximo, muitas atividades serão mais seguras ao ar livre do que dentro de estabelecimentos. “Essas descobertas repercutem diretamente em restaurantes e em outras empresas cujas atividades podem ser exercidas em áreas externas”, diz Makary. “A ioga e outros exercícios físicos, quando possível, devem ser feitos em áreas externas. Também é melhor comer no quintal ou no parque, com distância de um metro entre pessoas, do que receber convidados em sua casa para uma refeição”.

Por muito tempo as cidades dos EUA resistiram a permitir uma rica mistura de utilização no espaço público, com regulamentos impeditivos a atividades que seriam aceitáveis em muitas outras partes do mundo. Agora é a hora de repensar esses regulamentos, e rápido. Os espaços públicos devem se tornar ambientes utilizados, de maneira sensata, para proporcionar a reabertura das comunidades. Devem, também, seguir rigorosamente às diretrizes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e às pesquisas mais recentes, revogando leis locais que proíbem o uso externo.

O comércio aberto nas ruas, calçadas e praças, realizam várias de suas operações com maior segurança do que dentro de estabelecimentos. Além dos restaurantes, as cidades se beneficiam de feiras de alimentos frescos, de comércio varejista ao ar livre e até de alguns serviços de lavanderia e de pets. Possivelmente, em breve, serviços estéticos e cosméticos funcionem dessa maneira.

E se houvesse atividades gratuitas capazes de ajudar pais na maratona cotidiana de cuidados com os filhos? Ou de ajudar idosos, mesmo que à distância, a reatarem com seus parentes e amigos? A programação gratuita que pode restaurar a saúde e o senso de comunidade pode ser implementada em centros e bibliotecas comunitárias, assim como nas ruas e nos estacionamentos. Imagine séries de exercícios distanciados fisicamente, grupos de caminhada, contação de histórias ou até teatro ao ar livre e pequenos shows. Brotariam canteiros de hortaliças e de flores em ruas e estacionamentos pouco utilizados. Os serviços municipais também seriam levados a bairros que carecem do básico: distribuição de refeições, clínicas temporárias de saúde, moradia temporária e outros serviços sociais.

Há, também, em toda comunidade, uma profusão de entusiasmo e de talentos específicos que podem tornar nossas ruas mais bonitas e animadas, mesmo com o distanciamento. As organizações tradicionais do centro e dos bairros podem ajudar a capacitar e gerenciar uma programação segura em locais onde os gestores do espaço público jamais agiram. Artistas e músicos locais podem trazer alegria e entretenimento. Os voluntários podem ajudar na construção, na manutenção, na educação dos visitantes sobre distanciamento físico, assim como na distribuição de máscaras.

Não são ideias tão radicais. Muitas cidades já abriram suas ruas para pedestres e para ciclistas, propiciando espaço adicional devido o distanciamento social. Dentre os melhores exemplos temos a criação de redes que ajudaram pessoas a se locomoverem sem a necessidade de aglomeração em transporte público. Um número crescente de cidades, como Tampa (Flórida) e Cincinnati (Ohio), abriram seus restaurantes em dificuldades, com uma capacidade bastante reduzida, em plena via pública. A cidade de Rockland (Maine) planeja reabrir todo o comércio de sua rua principal do lado de fora dos estabelecimentos, a céu aberto. Montreal (Quebec) tornou-se a primeira cidade norte-americana a anunciar que, inspirada pela notória iniciativa de Barcelona, também implementaria os “superblocos” nas ruas de sua metrópole.

As feiras de agricultura familiar são um modelo de como os espaços públicos podem atender às necessidades cotidianas ao mesmo tempo que adotam medidas “mais leves, mais rápidas e mais baratas” para a adaptação do distanciamento físico. Mais de uma dúzia de estados declararam esses espaços públicos como serviços essenciais, mesmo durante o auge do isolamento. Feirantes e fornecedores se aperfeiçoaram em tempo recorde aplicando novas estratégias, tanto digitais como físicas, de alta e de baixa tecnologia; de compras on-line à drive-thru, de pagamento sem dinheiro em espécie à organização de tendas itinerantes; aumentando a comunicação entre as partes. Além disso, muitos continuam viabilizando os programas de assistência nutricional e facilitando o acesso a alimentos saudáveis. Em todos os dias de feira, eles se adaptam, aprendem e se renovam.

É necessário que órgãos governamentais e sociedade civil rompam suas estruturas disciplinares e setoriais a fim de aplicar estratégias conectadas às iniciativas de saúde pública, de serviço social e de incentivo econômico. Se conseguirmos isso, o espaço público poderá ser a vanguarda da nossa recuperação, pois garantirá, com segurança, o acesso a alimentos, a recursos de saúde, a emprego, a infraestrutura social e muito mais. 

Espaços públicos por todos e para todos

No começo, algumas vozes importantes da mídia convencional destacaram a densidade como pretexto para a disseminação do coronavírus, mas ficou bastante claro que a geografia da desigualdade é uma argumento mais realista.

Em Nova York, as taxas permanecem baixas na densa Manhattan, pois muitos nova-iorquinos são ricos e têm empregos que lhes permitem trabalhar e receber mercadorias em casa, ou detêm meios para fugir da cidade. Enquanto isso, os moderadamente densos Bronx e Queens foram os mais atingidos. Uma análise do Buzzfeed apontou que os fatores que mais se correlacionaram com a contaminação foram, de fato, o tamanho da família e a presença de um trabalhador que se expõe. Geralmente, são comunidades negras e pardas que já estavam sob estresse devido a moradias inseguras e superlotadas, a más condições de saúde preexistentes, a baixa qualidade do ar, a falta de acesso a alimentos saudáveis, a policiamento agressivo e a um espaço público limitado e mal conservado. O padrão é semelhante em outras cidades: um “cercado” dos bairros centrais e gentrificados da cidade, poupados em grande parte, e uma crise se desenrolando nos bairros periféricos em dificuldade. Em certo sentido, reclamações sobre a densidade são reclamações de poucos privilegiados que têm meios de contemplar uma alternativa. 

Ruas abertas, mercados públicos, parques e instituições culturais são lugares que permitem a recuperação, mas não acaba aí. Os defensores do espaço público, de todas as estirpes, devem ter cuidado para não confundir sua causa pessoal com as necessidades dos outros. Em vez disso, como já havíamos comentado, melhorias efetivas no espaço público necessitam da construção de uma relação de trabalho genuína entre seus usuários do presente e do futuro.

Por exemplo, em um recente webinário da Brookings Institution, Warren Logan, o Diretor de Políticas de Mobilidade e Relações entre Agências da Cidade de Oakland, falou abertamente sobre o feedback local e desigual a sua elogiada iniciativa Slow Streets, que tornou-se um aviso para os defensores dos transportes público dos Estados Unidos. A iniciativa ganhou as manchetes ao abrir 119 quilômetros de vias para pedestres e ciclistas em toda a cidade. Vale a pena notar que esse feedback aparentemente rápido não surgiu do nada. Um projeto ciclístico que incluía uma estrutura de equidade e envolvimento ativo da comunidade foi acelerado para garantir que a rede atingisse diversas comunidades, atendendo suas próprias necessidades.

Mesmo com apoio, no entanto, comunidades diversas tiveram respostas diferentes ao projeto Slow Streets. Na região oeste de Oakland, o feedback foi entusiasmado, com pedidos para que as mudanças se tornassem permanentes. Na região leste, entretanto, a resposta foi mista. Alguns questionaram por que a cidade concentraria esforços em pedestres quando não há máscaras, testes ou empregos suficientes nestas comunidades. Outros se preocupam com o policiamento. Como um morador perguntou a Logan: “Eu vou ser preso por sair de casa quando não deveria?” Desde o lançamento do Slow Streets, Logan passou grande parte do seu tempo ouvindo, tranquilizando, avaliando e se adaptando.

Esses tipos de objeções, geralmente de comunidades pretas, devem ser levados a sério pelos órgãos de transportes públicos e placemakers. Funcionários e trabalhadores que atuam no setor de desenvolvimento econômico, de saúde pública, de reforma da justiça criminal, urbanismo e gerenciamento do espaço público devem se unir para atender efetivamente às necessidades dos bairros onde a vida e os meios de subsistência das pessoas estejam ameaçados.

Além disso, as pessoas mais afetadas devem se engajar no combate aos perigos da pandemia. O envolvimento da comunidade pode ser desafiador durante este período, mas, segundo um seminário recente, podemos nos adaptar por meio de combinações criativas de ferramentas digitais e de táticas seguras a céu aberto. Apesar da necessidade urgente, uma resposta puramente tecnocrática vai desconsiderar componentes importantes da experiência de vida das pessoas, ignorando suas idéias e contribuições.

O caminho a seguir. 

Não é hora de cortar fundos de agências ou organizações que administram nosso espaço público externo. Pelo contrário, agora é a hora de finalmente reduzir o que Jane Jacobs chamou de “grande desequilíbrio” do financiamento do espaço público. Para responder com agilidade e adaptar-se constantemente, precisamos investir no gerenciamento, na programação e no aperfeiçoamento contínuo do espaço público, e não apenas em melhorias financeiramente caras.

Nos orçamentos municipais, as cidades deveriam tratar os espaços públicos como eles são: sustentáculos de nossa saúde, da resiliência social e da democracia. Parques e outros espaços públicos são há muito tempo despesas públicas negligenciadas em comparação a outros tipos de infraestrutura. Os parques da cidade de Nova York, por exemplo, representam menos de 1% do orçamento da cidade e, atualmente, seu quadro de funcionários é 35% menor do que no ano de 1976. Ainda sim, ano após ano, os mercados públicos lutam pela atenção de seus governantes e evoluem, geralmente, apesar das estratégias de expansão das cidades e do investimento público escasso. Outros investimentos de gestão do espaço público, como negócios que bancam distritos financeiros, baseiam-se na taxação de impostos de imóveis desta determinada região. Bairros que não podem custeá-los ficam fora da equação.

Os gestores de espaço público podem desenvolver o músculo logístico do qual precisamos para tirar gradativamente as pessoas de suas casas. Eles serviriam de grandes conectores, que desentrelaçariam os nós administrativos entre o espaço público, o transporte, a saúde pública, o incentivo econômico, o sistema alimentar, a justiça social e os serviços sociais. Seria capaz de desempenhar um outro papel convidando membros da comunidade para o processo de recuperação; e nos bairros onde não há gestores, as cidades fortaleceriam uma liderança local, investindo em grupos de bairro já existentes e construindo novas coalizões inclusivas por meio de treinamento e financiamento.

Trabalhando juntos, municípios e gestores locais podem ajudar a estruturar cidades mais justas e resilientes. Mas tudo depende da coragem política das cidades em adotar algo que é fato: a recuperação acontecerá no espaço público.

Traduzido por Stefano Danin. Formado em jornalismo (Unama) e tradução (PUC-Rio). Do original “The Recovery Will Happen in Public Space“, de Phil Myrick, publicado em 16 de maio de 2020 em pps.org.

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