Em uma emergência global de saúde, a bicicleta brilha

Enquanto a crise do Coronavírus força mudanças no transporte, algumas cidades estão construindo ciclofaixas e protegendo oficinas de bicicletas. Aqui está o porquê disso fazer sentido.

Ciclistas em Lima, Peru. Fonte: El Comercio, 2020.

Ao falar no Parlamento de Londres no começo deste ano, Chris Boardman, ex-ciclista olímpico e comissário de caminhada e ciclismo de Manchester, disse: “Pegue uma crise e você provavelmente descobrirá que o ciclismo é uma solução”.

Ele estava falando sobre o clima, a saúde e a poluição do ar, mas também poderia estar falando do Coronavírus.

Enquanto a Covid-19 nos assola, quase metade da população do mundo está sob alguma forma de restrição de deslocamento. Em uma tentativa de retardar a expansão do Coronavírus, as pessoas devem ficar em casa, com exceção às viagens essenciais estritamente limitadas à compra de comida e remédios e uma saída diária para exercícios. Todos nós precisamos cumprir as restrições impostas para controlarmos a epidemia desse vírus potencialmente mortal. Acredito que a melhor forma de manter uma distância segura dos outros quando nos deslocamos é pela caminhada e pelo ciclismo.

Muitos especialistas veem o ciclismo como uma forma segura de evitar os sistemas de transporte público lotados, e muitos cidadãos ao redor do mundo parecem concordar. Em Nova York, o ciclismo aumentou vertiginosos 52% nos espaços da cidade após os protocolos de distanciamento social terem sido colocados em prática. Em Chicago, o uso da bicicleta compartilhada dobrou no começo de março. Em Dublin e Londres, os defensores estão oferecendo apoio aos novos ciclistas que estão indo para as ruas aos montes.

O ciclismo pode ajudar comunidades nos “desertos de comida” a acessar lojas que estão mais longe que a distância de uma caminhada. Isso acelera a entrega de comida e remédios para as famílias sem um carro, ou àqueles que estão de quarentena em casa. Além disso, ajuda as pessoas a evitar viagens de carro, diminuindo a poluição do ar e liberando o trânsito para o transporte público, para aqueles que absolutamente precisam dele.

Para proteger as pessoas que estão fazendo viagens essenciais – incluindo equipes médicas que precisam chegar ao trabalho -, malhas de ciclovias de emergência poderiam ser  construídas rapidamente e de forma barata, usando pequenos postes e bastões temporários de fácil instalação, como fez a cidade de Sevilha. Bairros de tráfego baixo podem conectar essas rotas, impedindo motoristas que gostam de cortar caminho de usar as ruas residenciais, com vasos de planta e pequenos postes, enquanto permitem que os residentes entrem e saiam de bicicleta. Durante a crise, e enquanto a sociedade se recupera, essa malha poderia manter os residentes ativos e saudáveis, nos locais onde as restrições locais permitirem. Isso também seria de uso gratuito, o que é mais valioso do que nunca no meio de uma disruptura econômica global. Uma vez que passássemos por tudo isso, as comunidades poderiam decidir se manteriam a nova infraestrutura ou não.

Esta não é a primeira vez que as cidades usam o ciclismo como uma solução de emergência de transporte. A utilidade das bicicletas na recuperação de desastres foi demonstrada anteriormente após os severos terremotos na Cidade do México, em 2017, e Tóquio, em 2011. Uma crise global mais ampla – o embargo petrolífero da OPEP de 1973 – ofereceu outra oportunidade para o uso das bicicletas se intensificar. Esse choque no suprimento de gasolina causou um golpe severo à vida diária nos EUA e muitas nações do Oeste Europeu dependentes do carro. Mas na Holanda, onde a explosão de carros próprios nas ruas do país  no meio do século passado impulsionou as fatalidades rodoviárias e atiçou extensos protestos públicos, ajudou a desencadear uma revolução do transporte. O governo holandês decretou um programa massivo de construção de ciclofaixas, que continua até hoje. Agora, aproximadamente 30% de todas as viagens em todo o país acontecem em uma bicicleta, e as cidades estão até conectadas por “super-rodovias” de bicicletas.

Assim como na crise do petróleo, os líderes das cidades ao redor do mundo responderam de formas diferentes para manter as pessoas se deslocando durante a emergência do Coronavírus. É animador ver muitos governos reconhecendo o valor da bicicleta: Bogotá está instalando dezenas de quilômetros de ciclovias de emergência para manter as pessoas se deslocando ao mesmo passo que aumenta o distanciamento social. A prefeita da cidade colombiana, Claudia López, descreveu o ciclismo como “uma das alternativas mais higiênicas para a prevenção do vírus”. A Cidade do México está agora considerando um plano similar. Nos EUA, os líderes da Cidade de Nova York estão buscando formas de acomodar novos ciclistas, e dizem que construirão duas ciclofaixas de emergência para preencher lacunas na malha.

Mesmo nos locais onde não se está construindo uma nova infraestrutura, está protegendo-se o direito à andar de bicicleta. Na semana passada, o ministro da saúde da Alemanha, Jens Spahn, recomendou que as pessoas caminhassem ou andassem de bicicleta para o trabalho ao invés de usarem o transporte público quando os estados em todo o país impuseram o isolamento. Os residentes de Amsterdam, ciclistas ávidos, estão sendo ainda mais encorajados a pedalar e ficar saudáveis enquanto as aglomerações públicas são banidas e as ordens de distanciamento social são colocadas em vigor. Em Londres, o sistema de compartilhamento de bicicletas da cidade é agora grátis para os trabalhadores da saúde. Em Nova York, São Francisco e Berlim, e por todo o Reino Unido, as lojas de bicicletas foram autorizadas a ficarem abertas como serviços essenciais – mas não é assim em todos os outros lugares.

Aliás, nem todas as nações estão na mesma linha. A França e a Espanha, duas das nações europeias mais atingidas pelo coronavírus, estão na última categoria, tendo banido o ciclismo recreacional na tentativa de conter a expansão do vírus. Na França, as pessoas estão restritas a se deslocar não mais do que dois quilômetros de casa para se exercitar, e não está claro se o ciclismo para viagens essenciais é permitido. Na Itália, somente o ciclismo para viagens essenciais é permitido, e para atividades físicas, contanto que as pessoas fiquem a um metro de distância. Na Espanha, os ciclistas que desrespeitaram as proibições de ciclismo de lazer foram multados.

Esse é o motivo de, antes do isolamento do Reino Unido, mais de 80 especialistas em transporte e saúde pública terem assinado uma carta pedindo ao governo do Reino Unido que permitisse a caminhada e o ciclismo seguro durante a pandemia. “O confinamento, às vezes em acomodações superlotadas com pouco ou nenhum espaço verde privado, e particularmente durante os períodos de ansiedade, tem riscos de saúde”, diz a carta deles, adicionando que os espaços verdes devem ser mantidos abertos para a caminhada e o ciclismo, para permitir o exercício e os benefícios psicológicos que os acompanham. Para as viagens tal como compras, e para aqueles trabalhadores essenciais que ainda precisam se deslocar, a caminhada e o ciclismo devem ser apoiados. “Nós recorremos aos tomadores de decisão para que protejam o direito a caminhar e andar de bicicleta com segurança (contra o risco de infecção e lesão de trânsito) para aqueles que não são sintomáticos”.

As ciclovias e as rotas de pedestres deixam o transporte mais resiliente e mais justo. Elas são imunes aos preços do petróleo e relativamente resistentes ao clima extremo e viroses. Não discriminam pelo salário, sexo ou raça. Fazem infinitamente mais sentido do que as ruas alinhadas com os estacionamentos de carros privados, subsidiados pelo setor público. Além disso, sem elas, nós temos pouca esperança de derrubar a outra crise global em nosso meio: a mudança climática.

Pode haver algo de positivo a vir da tragédia desta pandemia: um meio de transformar o modo com que viajamos, limpar o nosso ar, melhorar a nossa saúde e derrubar a crise climática. É a nossa oportunidade de aproveitar.

Traduzido por Rodrigo Nassar. Engenheiro de Civil. Mestre em Engenharia Naval (UFPA). Especialista em Infraestrutura de Transportes (INBEC) e Trânsito Urbano (UFPA).

Do original: “In a Global Health Emergency, the Bicycle Shines”: https://www.citylab.com/perspective/2020/03/coronavirus-bike-lane-emergency-transportation-covid-19/608725/

Artigo revisado e editado por Toni Moraes – Monomito Editorial para Laboratório da Cidade.

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