Uma Carta Aos Prefeitos Paraenses

Prefeituras estão na ponta de lança no enfrentamento ao COVID-19. Lideranças locais se veem forçadas à nova realidade onde indivíduos, famílias, negócios e organizações sociais em suas comunidades vivem sob constante estresse. Muitas dessas prefeituras se viram abandonadas à própria sorte, sem apoio federal.  

Para salvar a maior quantidade de vidas possível, permitir uma retomada econômica vigorosa e manter o diálogo e a democracia fortes as lideranças locais precisam assumir protagonismo. Está na hora dos prefeitos se tornarem as lideranças que suas comunidades precisam.  

Primeiro precisamos reconhecer que um novo normal vai emergir desta crise e que, portanto, precisamos de uma mudança de mentalidade. Entender que o mundo deverá confiar ainda mais em iniciativas de baixo para cima. Eis algumas mudanças necessárias: 

Gestão compartilhada: reconhecer que a prefeitura não é a menor forma de organização comunitária, mas que é a mais preparada para articular problemas e soluções. Abram diálogo não apenas com governadores e governo federal mas, principalmente, com as lideranças comunitárias; 

Horizontalidade: firmem o pé na representação das pessoas da sua comunidade, priorize as suas necessidades, especialmente quando receberem orientações de cima para baixo que não respeitam suas particularidades; 

Sejam uma voz de unidade: entendam que em um momento com tantas dificuldades uma linguagem polarizada só vai nos atrasar;

Aproveitem o momento: em tempos tão voláteis, pequenas mudanças de mentalidade vão reverberar e possivelmente se transformar em mudanças significativas (para o bem ou para o mal) no futuro. Não permitam que interesses políticos os atrasem. As cidades com lideranças firmes e proativas ressurgirão mais fortes depois dessa crise. Esse é o momento de nos reinventarmos! 

Sejam Pragmáticos, aqui vão algumas iniciativas: 

  1. Mantenham o povo alimentado: essa é uma atitude urgente e imediata. Pensem em parcerias público-privadas pois essa não é a expertise das prefeituras e tem muitas organizações da sociedade civil já fazendo este trabalho. Vocês podem apoiar essas redes financeiramente, cedendo escolas para ponto de apoio, oferecer suas redes de parceiros ou mesmo emprestar seu selo de confiança junto à empresários que queiram ajudar. Pessoas com fome não respeitam a quarentena! 
  2. Deem abrigo para as pessoas: o mesmo princípio da alimentação vale para esta iniciativa.  
  3. Apoiem o nosso sistema de saúde: não caiam na tentação de balancear economia e saúde. Um bom líder entende que, no nível municipal, não há diferença entre os dois. Nós precisamos combater o COVID-19 nos dois frontes com igual seriedade. Lembrando sempre que salvar vidas também é salvar a economia. Se você for verdadeiramente comprometido em salvar vidas, as pessoas vão responder positivamente.
  4. Conectem máscaras com a recuperação econômica: ainda está cedo para pensarmos em afrouxar o isolamento (muito cedo) mas quando chegar o momento precisaremos de uma mudança de mentalidade, as máscaras serão necessárias por muito mais tempo depois do declínio do COVID-19, então liderem pelo exemplo, sempre usem máscaras e em todo evento público e reforcem em todas as oportunidades que tiverem a importância de seu uso. Usar máscaras deverá fazer parte da nossa cultura a partir de agora. 
  5. Deem espaço para as pessoas: permitam que feiras desenhadas especialmente para tempos de COVID-19 floresçam nos bairros, assim vocês garantem abastecimento, permitem que os deslocamentos diminuam, giram a economia com o pequeno produtor/empreendedor e têm controle sobre as distâncias recomendadas. É muito mais fácil marcar as distâncias no asfalto do que redistribuir as prateleiras de um supermercado. Segundo a OMS o meio de transporte mais seguro nas cidades é o transporte ativo (caminhar e pedalar), criem ciclovias temporárias imediatamente para que pedestres e ciclistas possam respeitar o distanciamento de dois metros. Tirem espaço dos carros e deem para as pessoas! 
  6. Não peguem pesado na repressão: entendam que a maioria das pessoas vai aderir ao isolamento social voluntariamente, os que não aderirem vão responder mais à campanhas de sensibilização, trabalho de educação, pressão de conhecidos e sentimento comunitário. Mostrem que esse momento é extraordinário e que, portanto, precisamos de comportamentos individuais e coletivos extraordinários. Diálogo sempre se sobrepõe à truculência.
     
  7. Apoiem a adaptação: negócios locais precisam se adaptar para sobreviver, não atrapalhem esse processo de inovação. Se desejam ser proativos, perguntem ao pequeno empreendedor (e não apenas a grande) o que pode ser feito para facilitar esse processo.
     
  8. Tomem suas decisões baseadas em evidências: Muito pouco tem se feito para coletar dados de isolamento social, testes e outros. Outras cidades fazem relatórios em tempo real do número de contaminados em cada bairro, criam índices de isolamento social, mapeiam aglomerações, enviam mensagens personalizadas para cada morador da cidade, tentando sensibilizar seus moradores à ficarem em casa. Precisamos saber quantos infectados temos, quantas pessoas saem de casa e onde estão surgindo aglomerações. Em Recife, até um drone com auto falante está sobrevoando as comunidades materializando a nova realidade com a qual nos deparamos. Coletem dados de forma inteligente ou, pelo menos, coletem dados!

Por Lucas Nassar Sousa. Arquiteto e Urbanista. Diretor Executivo e Cofundador do Laboratório da Cidade.

Adaptado do colega urbanista Charles Marohn.

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