Afetividade no espaço urbano e as transformações na percepção da cidade

Rua aberta na Doca de Souza Franco, 2018. Fonte: Acervo Laboratório da Cidade

Este texto, apesar de informativo, é também autobiográfico, em certa medida. Percebo o quanto a pós-modernidade pode trazer excesso de informação sobre os locais, influenciando, assim, a identidade e o consequente afeto sobre a cidade. Posso contar os vários vazios e a certa rapidez com que vivo no hoje desta cidade, mas será que a cidade antes era lenta ou nós que hoje somos rápidos demais?


Morar ao redor de praças e ir andando até a Praça da República, comer crepe na praça de alimentação do shopping Castanheira, subir em árvores mesmo morando no centro da cidade, pular elástico enquanto as mães se juntavam na frente das casas para olhar as crianças, ir à Praça Batista Campo e andar no trem da Turma da Mônica.

Crianças brincando na Praça do Carmo. Foto: Hannah Maués, 2019.

Com as distorções do crescimento urbano, o modo de se relacionar com a cidade foi transformado. Com certeza as formas de lidar com o ambiente geram inconscientemente um julgamento sobre o “feio” e o “bonito” na paisagem, o que é melhor e o que deve ser destruído, o lugar e o não-lugar, sem compreender o antes e o depois, ou seja, os motivos que levaram àquela transformação. 

Este artigo é sobre o ontem e o hoje, e sobre como o espaço existencial pode ir diminuindo em consequência da supermodernidade dos dias atuais. Sobre sensações e atividades que nos eram adequadas quando éramos crianças, brincar na rua, ir ao parque de Nazaré ou ter um quintal frutífero em casa, e que hoje podemos não conseguir mais reproduzir minimamente em nossos dias.


Na volta do African Bar, ir para casa pela Presidente Vargas, sentir no rosto o vento que vinha da baía, trazia uma sensação de aconchego e pertencimento; ruas largas, tráfego pequeno; ir ao estádio com os pais ainda criança e ter a sensação de ter a vista privilegiada por estar no “cangote” passeando entre as pessoas.

Pensei em como a relação com a cidade mudou, o que é natural, mas a pergunta não é se é bom ou ruim, mas sim se a forma de perceber a cidade ficou mais ou menos sincera.

Aqui o perceber (percepção) é no sentido de contemplar, de experienciar, tomar para si, ou seja, é mais do que o sentido cru da palavra. Ao andar de carro particular vejo que não percebo a cidade. Não percebo mais o túnel de mangueiras, as pessoas que todo dia passavam e estavam na mesma rua, não percebo as famílias na Feira da 25 ou no Mercado de São Brás, naquelas barracas que passavam de pai para filho, e era fácil decorar alguns sobrenomes, não percebo mais o frescor de andar ao lado do bosque, ir ao armarinho comprar papel com pauta. Sei que algumas destas sensações ainda estão lá, só nos resta retomar esses espaços sensoriais.

Comprar aquelas bolas enormes e coloridas no ITA, bolinhas de sabão, maçã do amor, guiar no autopista era uma liberdade sonhada por qualquer criança, épocas que sempre tinham expectativas que se chegasse logo. Frequentar o Cinema Nazaré e depois jantar na pizzaria Napolitana, assistir ao Parafolia e CarnaBelém, caminhar até o supermercado Jumbo, patinar na Rollon e na Roller Point. A cidade era algo muito pessoal, íntima, próxima.

Pela alteração das noções de tempo e espaço, sinto que pequenas coisas do dia a dia podem me deixar longe do sentimento de percepção da cidade, e é como se ela passasse sem que houvesse a contemplação do viver. Ora, não é somente o “saber que moro em uma cidade” que me faz uma pessoa urbana, mas também entender que a cidade é uma relação de afeto, com cheiro, sabor, cor, textura e linguagem. Ela tem uma forma particular para cada um que ocupou seus espaços, e hoje a nossa percepção da cidade pode estar se tornando menos sensível.

As visíveis lacunas nos centros urbanos são as grandes provas disso. Os vazios, a soturnidade e o abandono da cidade não são nada menos do que o reflexo das atitudes que não conseguimos manter para com os espaços, podendo tê-los transformado em não-lugares de uma forma sutil, quase imperceptível.

Para Lefebvre (2011), o direito à cidade deve ser tomado como ação ou práxis promotora do contato com a alteridade, permitindo a articulação e a integração do outro, a fim de construir um novo tempo, um novo homem, para uma nova sociedade urbana. Sendo assim, as sensações do ontem ainda podem ser reproduzidas no hoje, integrando os tempos e os corpos na cidade, e reafirmando o espaço existencial e vivo.

A modernidade não apaga os vínculos dos tempos passados, só os deixa em segundo plano. É quando o indivíduo do passado entra em contato com uma outra imagem de si mesmo que a sua percepção da cidade muda, e isso não necessariamente é algo reprovável, mas é um alerta de como é interessante reinventar as novas formas de praticar o espaço.

No entanto, se a identidade do lugar depende da apropriação da comunidade de forma compartilhada e afetiva para que as intervenções urbanísticas consigam perpetuar sua essência ou espírito, é preciso que a própria comunidade organize um movimento em torno destas modificações, a fim de garantir a vida e a preservação destes espaços dotados de significado.

Essa questão reafirma que a experiência e a memória são instrumentos a serem utilizados para a potencialização do espaço, sendo a consciência urbana uma ação política embutida na própria experiência, capaz de reacender os espaços de memória, dando uso e os trazendo para as outras gerações como possíveis lugares de afeto.

Ainda sobre a questão da supermodernidade, é inevitável que ela possa gerar insegurança, pressa, perda de valores e talvez certo desinteresse e esquecimento, no entanto abre caminho para a experiência significativa, esta entendida como aquela capaz de tocar, afetar e modificar o ambiente vivido.

Em Belém podemos perceber que os laços existentes entre a aparência física da cidade e seus elementos humanos são originários de um regionalismo forte e ainda tradicionalista, sendo assim existe a forma ímpar de criação do tecido social e urbano que dão identidade e reestruturam seu valor físico. 

Portanto, a velocidade com que podemos estar sentindo a cidade hoje não nos impede de revivê-la e promover novos laços afetivos entre as pessoas e a cidade. No mais, proponho a todos que possamos perceber a cidade no agora e reviver as memórias que guardamos com carinho.

Referências:

AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução Maria Lucia Pereira. Campinas, SP: Papirus, 1994.

JODELET, Denise. A cidade e a memória. In: Projeto do lugar: colaboração entre psicologia, arquitetura e urbanismo. Del Rio, V.; Duarte, C. R.; Rheingantz, P. A. (org). Rio de Janeiro: PROARQ/UFRJ, 2002.

BRAGA, Andrea da Costa; AREND, Natan Franciel. A dimensão afetiva na experiência do espaço urbano: investigações metodológicas. São Paulo, 2017. Acesso em http://anpur.org.br/xviienanpur/principal/publicacoes/XVII.ENANPUR_Anais/ST_Sessoes_Tematicas/ST%206/ST%206.7/ST%206.7-01.pdf

Por Karla Furtado. Advogada, Sócia do escritório feminista Moura, Cunha & Furtado Advogadas Associadas, voluntária na ONG Ame o Tucunduba e Laboratório da Cidade.

Artigo revisado e editado por Toni Moraes, Laboratório da Cidade.

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