Quando o noticiário nos furta o direito à cidade que desejamos

[…] as tipificações ao nível do senso comum […] emergem na experiência cotidiana do mundo, como pressupostos […] (SCHUTZ, 1979, p. 118)

Foto: Hannah Maués, 2019.

Está naturalizado e normalizado o uso das mídias para o consumo de informações. Faz parte do nosso dia a dia receber dezenas de links de portais de notícias pelo WhatsApp e Facebook, por exemplo. Ligar a TV, há tempos, é um ato cotidiano. Assistir aos noticiários no horário do almoço e jantar também.

Informar-se é uma das ações mais comuns de nossas vidas. Mesmo que não se leia a notícia por inteiro ou não se assista à matéria completa na TV, a chamada e os títulos cumprem o seu papel de entregar informação imediata. Em uma passagem rápida por uma banca de jornal, por exemplo, é possível saber que o preço da gasolina subiu, um novo escândalo político aconteceu e que o resultado do jogo de futebol não foi lá satisfatório. Mas e quando essas rápidas notícias, transformadas por vezes em títulos sensacionalistas, criam tipificações (SCHÜTZ, 1979) no imaginário coletivo a ponto de repetirmos essas tipologias e, por vezes, criarmos estereótipos?

Faço um desafio a você. Pense no bairro mais perigoso de sua cidade. Quem disse a você que ele é perigoso? Como você criou essa imagem desse bairro? Você tem estatísticas de violência sobre isso ou você pensou nesse bairro porque é sabido em sua cidade que ele é perigoso? Questões como essas nos fazem pensar de onde vêm as tipificações que criamos ou que criam por nós sobre a nossa própria localidade.

Não nos questionamos o porquê do bairro X, da rua W ou da praça Z ser retratada sempre de uma mesma forma nos jornais. A repetição dessas tipificações no dia a dia se incorpora ao nosso vocabulário, modos de pensar e, por fim, modo de agir. Afinal, viramos estranhos em nossa própria cidade. Se tal lugar é assim, evita-se viver (n)este lugar. Nos tornamos estrangeiros que só visitam locais públicos e pontos turísticos dignos de capa de revista.

A cidade que desejamos, pelo contrário, é democrática. É aquela em que deveríamos ter acesso a todos os espaços, física e simbolicamente. Quando nos noticiários se criam tipificações de ordem antidemocrática, ou seja, que nos impedem de ver determinadas localidades com outras e diversas lentes, que não somente a da violência, por exemplo, nos tornamos antidemocráticos em nosso próprio espaço e criamos barreiras de interações.

Como a epígrafe que abre este texto, os tipos criados no senso comum, nos noticiários, se tornam pressupostos. E, assim, diariamente damos as costas para tantas possibilidades de vida, de rua e de cidade, em prol de preconceitos midiáticos. Somos furtados da cidade que desejamos.

Foto: Hannah Maués, 2019.

Comentário do editorial:

O bairro da Terra Firme está situado na chamada “zona vermelha” e é considerado um dos mais violentos de Belém de acordo com índice do Observatório de Estudos em Defesa da Juventude Negra.

Cansada de apenas assistir às marcas deixadas pela violência no bairro, a professora Lília Melo criou o projeto “Juventude Negra Periférica – Do extermínio ao protagonismo” que é realizado em parceria com coletivos periféricos e estimula a produção de conteúdos audiovisuais pelos jovens, além de promover atividades de dança inspiradas no movimento hip hop, no teatro e no cinema.

A iniciativa levou a professora Lília a conquistar o título de melhor educadora de Ensino Médio do País em 2018, no prêmio nacional “Professores do Brasil” (MEC).

Lília conseguiu enxergar na Terra Firme muito mais que a violência veiculada nos noticiários. “Havia muitas cores. Muita pobreza, mas muita vida! Eu via vida nas pessoas, no olhar delas!”

Projetos como o de Lília são fundamentais para construirmos as cidades mais democráticas que desejamos.

Veja mais em: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/causadores-professora-lilia-melo/index.htm?fbclid=IwAR14n17ZTWo-g1zIfG71KP-3lAl7fwqtXHONCLe9J3QUQsxLgJLQPu0mlM8#muita-pobreza-mas-muita-vida

Referências

SCHÜTZ, Alfred. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

Para conhecer

Coletivo Tela Firme – coletivo de comunicação popular que luta para destipificar os mitos sobre a Terra Firme, por meio de produção audiovisual e eventos no bairro.

Link: https://www.facebook.com/telafirme/

BRITO, Rosaly. S.; STEINBRENNER, Rosane M. A.; CUNHA, Elaide M. A voz de grupos periféricos em Belém: autorrepresentação, mídia e disputa de sentidos. Esferas, ano 6, n. 10, jan./jun. 2017. Disponível em: <https://portalrevistas.ucb.br/index.php/esf/article/view/8298&gt;. Acesso em: 25 jun. 2019.

COSTA, A. C; AMORIM, Celia Regina T. C; LIRA, Adriana S. C. Poderia ter sido você: cidadania e periferia. Revista Alterjor, São Paulo, ano 7, vol. 01, ed. 15, jan./jun. 2017. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/alterjor/article/view/123845&gt;. Acesso em: 25 jun. 2019.

Vale o replay

Psicologia, cidade e cidadão: construindo interações – evento realizado pelo Laboratório da Cidade para debater “a influência do meio ambiente urbano na formação de cidades mais humanas e democráticas”.

Link: https://laboratoriodacidade.org/2018/01/24/psicologia-cidade-e-cidadao-construindo-interacoes/

Por Suzana Magalhães. Professora da Faculdade de Comunicação e mestranda do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia, ambos da Universidade Federal do Pará (UFPA). 

Artigo revisado e editado por Toni Moraes. Comentários de Isabela Avertano Rocha. Laboratório da Cidade.

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