Sobre o Dia Internacional da Mulher, Luta por Igualdade e Direito à Cidade

Roda de Conversa sobre mobilidade de gênero durante intervenção do Circular. Mediação: Pedala Mana. Fonte: Acervo LabdaCidade

Todos os anos, durante o mês de março, são realizados, no Brasil e no mundo, diversos eventos em homenagem ao Dia Internacional da Mulher (8 de março). Por muito tempo, a ótica adotada pelos organizadores destes eventos não tinha grande efeito, senão ressaltar a divisão estereotipada entre gêneros, e a imagem da mulher frágil e bela, associada à doçura e quase nunca a posições de liderança ou que denotassem poder. Órgãos públicos e privados, maridos, filhos e até mesmo outras mulheres reproduzindo felicitações neste dia com flores, bombons, dias de spa e salão de beleza, e pouquíssimas discussões sobre a luta por igualdade de gênero dentro dos seus lares, nos empregos ou no acesso à cidade.

Esta realidade vem mudando lentamente com o passar dos anos, e o entendimento de que o 8 de março é um dia de luta vem sendo disseminado, colocando em pauta, finalmente, questões importantes como a busca de igualdade salarial, segurança, mobilidade e direito à cidade.

Em Berlim, por exemplo, a autoridade de trânsito da cidade criou por um dia (18 de março) um bilhete especial para mulheres, o “Fraunticket”, que permitia viajar para qualquer lugar da cidade o dia todo por €5.50, em vez do comum de €7– uma redução de 21% na tarifa regular. A ação associou o dia Internacional da mulher ao Dia da Igualdade Salarial Alemã e o desconto reflete o percentual que as trabalhadoras alemãs recebem a menos quando comparadas aos seus colegas do sexo masculino. A passagem esteve disponível para todas que se identificassem como mulheres, sendo elas cis ou trans. O “Fraunticket” coloca em pauta a necessária discussão sobre igualdade salarial, mas em outra configuração, poderia ser uma campanha sobre o direito de acesso à cidade, considerando as diversas dificuldades de mobilidade urbana que as mulheres enfrentam em muitas cidades do mundo.

Por muitos anos, projetos voltados para a mobilidade urbana foram majoritariamente desenvolvidos por homens. Incluir a perspectiva de gênero nos debates do desenvolvimento urbano vem se tornando uma questão urgente. Estudos recentes, como o da engenheira Haydée Svab, demonstram que o deslocamento da mulher na cidade se dá de maneira poligonal, enquanto o do homem é pendular. Esta diferença se deve à grande quantidade de funções domésticas comumente assumidas pelas mulheres, como a responsabilidade de ir à farmácia, supermercado, ou levar os filhos ao médico e escola. O deslocamento a pé, de bicicleta ou de transporte público é, também, mais frequente entre mulheres. Em famílias pobres, negras e periféricas a diferença é mais acentuada. Nas casas onde a família possui apenas um carro, normalmente o veículo é usado pelo homem, as mulheres ficam com os outros modais. No entanto, o que se vê, quase como regra, são cidades projetadas para a circulação extensiva de carros e inseguras para pedestres.

O projeto “O acesso de mulheres e crianças à cidade”, desenvolvido em Recife, demonstra que a promoção da mobilidade urbana sustentável considerando idade e gênero faz com que a cidade se torne mais acessível à sociedade como um todo.  Isto se justifica facilmente, já que os problemas de mobilidade da mulher na cidade passam por questões de segurança física quando caminham, porque são as maiores vítimas de assédios e assaltos, assim como pela necessidade de calçadas mais largas, rampas, ruas bem iluminadas e de repensar de um modo geral a arquitetura e o urbanismo que adotam muros altos e avenidas largas para comportar mais carros, resultando em espaços pouco inclusivos, pensados para proteger a propriedade privada e não para a melhor experiência daqueles que vivem a cidade a pé.

O planejamento urbano neutro é pouco efetivo e excludente. É necessário fomentar a discussão de gênero na mobilidade e considerar a importância da participação das mulheres em todo o processo, sem deixar de atentar para a revisão necessária de questões estruturais como a divisão de tarefas domésticas, afinal, se os homens tivessem as mesmas responsabilidades das mulheres, será que o padrão de desenho urbano seria o mesmo que se vê hoje?

Referências:

Citylab.com. Why Berlin is giving women a discount on public transit.

Haydée Svab. Evento “Mobilidade urbana e gênero – compreendendo a ótica de gênero no planejamento de sistemas de mobilidade urbana”. Laboratório da Cidade. Belém, 09 de fevereiro de 2019.

Instituto de políticas de transporte e desenvolvimento. “O acesso de mulheres e crianças à cidade”. Recife, 2018.

Por Isabela Avertano Rocha. Urbanista e Arquiteta. Especialista em Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente. Mestra em Desempenho Ambiental e Tecnologia.

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